Entender a cultura atual do cancelamento nas redes eletrônicas é uma tarefa que vem ocupando diversos pesquisadores interdisciplinares contemporâneos. No entanto, a prática do cancelamento não é algo exatamente original do século XXI, já que ocorreu em outros momentos da história cultural, apenas sob outras nomeações e práticas temporais. No âmbito da Literatura Portuguesa, por exemplo, há um caso duradouro de cancelamento que diz respeito ao escritor oitocentista António Feliciano de Castilho (1800-1875), que hoje ninguém mais lê e é considerado taxativamente como uma figura literária medíocre. Cancelamento, no campo literário, significa apagamento, esquecimento, rasura e censura. O caso de Castilho é interessante para pensar como esses processos eram promovidos no passado em que imperava apenas a palavra escrita circulante em livros, jornais e revistas, e quais eram os procedimentos críticos, sociais e mesmo políticos que sustentariam essas formas de cancelamento.
Understanding the current culture of cancellation on electronic networks is a task that has occupied many contemporary researchers. However, the practice of cancellation is not new, as it has occurred at other times in cultural history, just under different names. In the field of Portuguese literature, for example, there is an enduring case of cancellation that concerns the 19th century writer António Feliciano de Castilho (1800-1875), who today no one reads anymore and is considered to be a mediocre literary figure. Cancellation, in the literary field, means erasure, forgetting, erasure and censorship. Castilho’s case is interesting for thinking about how these processes were promoted in the past, when only the written word circulating in books, newspapers and magazines prevailed, and what were the critical, social and even political procedures that would support these forms of cancellation.