O culto Candomblé é conhecido no Brasil por sua organização estabelecida com hierarquias de poder que se dão por relações de senioridade e por distribuições de cargos e suas respectivas tarefas discriminadas por gênero. Em toda a literatura disponível considerada clássica acerca da ritualística candomblecista, encontraremos, por exemplo, menção aos cargos dos alabês e ogans de toque, como cargos honoríficos exclusivos masculinos destinados aos cuidados técnicos e ao aprendizado e transmissão da liturgia sonora que envolve os tambores consagrados de um lado e de outro o reforço de uma crença em que a presença das mulheres nesse território simbólico não é permitida. A revelia desse pretenso tabu temos encontrado com mulheres tamboreiras do sagrado subvertendo uma pretensa “interdição secular” nos dias de hoje em terreiros de candomblé baianos e a partir dos seus relatos biográficos, também de uma revisão bibliográfica aprofundada sobre o tema, de uma análise de algumas textualidades mitopoéticas e de uma seleção iconográfica pretendemos com o presente trabalho compreender se essas presenças femininas nos tambores consagrados de alguns candomblés tratam-se de um fenômeno novo e crescente ou são resquícios de uma dimensão do culto que foi apagada ante o impacto das culturas patriarcais.
The Candomblé religion is known in Brazil for its established hierarchy of power based on seniority and the distribution of roles and tasks according to gender. In all the available literature considered classic on Candomblé rituals, we find, for example, mention of the positions of alabês and ogans de toque, as honorary positions exclusively for men, intended for the technical care, learning, and transmission of the sound liturgy involving the consecrated drums, on the one hand, and on the other, the reinforcement of a belief that the presence of women in this symbolic territory is not permitted. Despite this supposed taboo, we have found female sacred drummers who subvert a supposed “secular prohibition” today in the Candomblé terreiros of Bahia and, based on their biographical accounts, an in-depth bibliographic review on the subject, an analysis of some mythopoetic texts, and an iconographic selection, we aim to understand whether these female presences in the sacred drums of some candomblés are a new and growing phenomenon or vestiges of a dimension of the cult that was erased by the impact of patriarchal cultures.
El culto candomblé es conocido en Brasil por su organización establecida con jerarquías de poder que se dan por relaciones de antigüedad y por distribucionesde cargos y sus respectivas tareas discriminadas por género. En toda la literatura disponible considerada clásica sobre la ritualística candomblecista, encontramos, por ejemplo, mención a los cargos de alabês y ogans de toque, como cargos honoríficos exclusivos masculinos destinados al cuidado técnico y al aprendizaje y transmisión de la liturgia sonora que involucra los tambores consagrados, por un lado, y por otro, el refuerzo de una creencia en que la presencia de las mujeres en este territorio simbólico no está permitida. A pesar de este supuesto tabú, hemos encontrado mujeres tamborileras del sagrado que subvierten una supuesta «prohibición secular» en la actualidad en los terreiros de candomblé de Bahía y, a partir de sus relatos biográficos, también de una revisión bibliográfica en profundidad sobre el tema, de un análisis de algunas textualidades mitopoéticas y de una selección iconográfica, pretendemos con el presente trabajo comprender si estas presencias femeninas en los tambores consagrados de algunos candomblés son un fenómeno nuevo y creciente o son vestigios de una dimensión del culto que fue borrada ante el impacto de las culturas patriarcales.