Em um de seus textos, Steven Shaviro oferece uma análise estimulante do vídeo que Chris Cunningham gravou para a música All Is Full of Love, de Björk. Ele mostra como a cantora se transforma num ciborgue e como esta fantasia é replicada noutro ciborgue. Desta forma, o clipe joga com o poder de duplicação destes corpos maquínicos que se tornaram corpos de desejo. Perante estas mutações pós-orgânicas, Shaviro evoca a vida erótica das máquinas, sugerindo um novo modo de existência que postula a ideia de uma pele tecnológica (afetada e emocional). No entanto, estas imagens não são apenas sobre transformação, mas sobre uma fusão entre o humano e o seu devir-máquina. Shaviro retoma a questão do desejo e da máquina levantada por Deleuze e Guattari em L’Anti-Oedipe, em que há tantos seres vivos na máquina como máquinas em seres vivos. No entanto, a metáfora orgânica do dispositivo fílmico propõe um processo de interação com o espectador, um processo no qual Shaviro demonstra pouco interesse, concentrando seu olhar na questão do duplo e de seu devir-mutante. Ao propor uma abordagem fenomenológica às noções de virtual e de possível – e ao alargar a minha leitura de Bergson nesta direção – espero questionar a oposição entre o atual e o virtual de uma forma nova. A estrutura epistemológica deste artigo está no cruzamento da filosofia e da teoria da mídia. Usando o vídeo de Cunningham como ponto de partida, busco situar as noções de virtual e real do ponto de vista da fenomenologia. De que forma a virtualidade das imagens digitais transmite intenções que nos convidam a reconsiderar a maneira como vemos o mundo?