O século XIX alçou a figura de Luís de Camões a um nível escultural, como já indicava Teófilo Braga antes ainda das comemorações do tricentenário. Desde Bocage e Garrett, diversos escritores buscaram se associar a esse poeta. Neste artigo, proponho-me a analisar alguns aspectos recorrentes que marcaram a construção desse ideal a partir de algumas construções ficcionais de Camões no romantismo português para examinar seu uso muito além de simples personagem escultural. Para isso, detenho-me em textos menos conhecidos hoje em dia, mas de grande divulgação em seu tempo. Trato de duas obras de António Feliciano de Castilho, de um poema da poetisa Maria Adelaide Fernandes Prata, além de uma narrativa de Alexandre Herculano. Assim, espero conseguir mostrar como se tornou recorrente a ideia de que para ser como Camões era necessário ter defendido e cantado a pátria. Isso impediria a associação plena de escritoras com o vulto camoniano. Por outro lado, permitiu que Herculano, por ter sido também soldado e poeta, cantasse e contasse Portugal em diferentes gêneros, com a liberdade estética que preconizava, associando a sua imagem à do autor d’Os Lusíadas, mesmo sem se referir diretamente a ele ou a sua obra.
The 19th century elevated the figure of Luís de Camões to a sculptural level, as Teófilo Braga had already indicated before the tercentenary celebrations. Since Bocage and Garrett, several writers have sought to associate themselves with this poet. In this article, I propose to analyze some recurring aspects that marked the construction of this ideal and some fictional constructions of Camões in Portuguese Romanticism to examine his use far beyond a simple sculptural character. To this end, I focus on texts that are less well-known today but were widely circulated in their time, such as those by António Feliciano de Castilho, a poem by the poetess Maria Adelaide Fernandes Prata, and a narrative by Alexandre Herculano. In this way, I hope to be able to show how the idea that to be like Camões became recurrent that it was necessary to have defended and sung the country. This would prevent the full association of female writers with the Camonian figure. On the other hand, it allowed Herculano, who was also a soldier and a poet, to sing and tell stories about Portugal in different genres, with the aesthetic freedom he advocated, associating his image with that of the author of The Lusiads, even without referring directly to him or his work.