A transmissão intergeracional de padrões emocionais, comportamentais e cognitivos tem sido amplamente investigada nas ciências humanas e biomédicas, especialmente no que se refere aos efeitos duradouros do trauma psíquico. Este artigo apresenta uma análise integrativa das interfaces entre epigenética, trauma psíquico e formação de crenças limitantes, com o objetivo de compreender de que modo experiências adversas vividas por gerações anteriores podem influenciar a vulnerabilidade psicológica e a repetição de padrões emocionais e comportamentais nas gerações subsequentes. Com base em evidências empíricas provenientes de estudos em humanos e modelos animais, discute-se o papel da epigenética como mecanismo mediador entre ambiente, estresse e regulação da expressão gênica, destacando processos como a metilação do DNA e suas implicações para os sistemas de resposta ao estresse. São também abordados os alcances e limites conceituais da epigenética aplicada à saúde mental, bem como suas implicações éticas, especialmente no que se refere à prevenção de interpretações deterministas do sofrimento psíquico. Conclui-se que a epigenética não estabelece destinos fixos, mas contribui para uma compreensão ampliada e integrada dos processos transgeracionais envolvidos na constituição e na manutenção de crenças limitantes e do sofrimento psíquico.