Em “O processo”, Franz Kafka apresenta a efetividade da força estatal através de estruturas que cerceiam não somente a liberdade do indivíduo, como também legislam sobre a sua própria existência, por vezes atuando, dado o interesse do Estado, como carrasco, uma vez que o poder a si conferido ultrapassa os limites da ordem jurídica e do moralmente aceito quando a “integridade nacional” ou qualquer outro fato, forjado ou não, ameaça a harmonia estabelecida pelo Estado. Este artigo tem como objetivo estabelecer um diálogo entre Kafka e o pensamento do filósofo Agamben, mais precisamente sobre a questão do estado de opressão, que ele chama “de exceção”, questão esta observada sobretudo em “O processo”, cuja narrativa versa sobre a atuação estatal sobre as vidas dos indivíduos, por vezes de forma cruel, traço característico do processo de subtração da legalidade jurídica ou mascaramento da barbárie através da distorção da lei. Também colaboraram para esta reflexão outras obras do escritor tcheco, mas em menor grau, a exemplo de “A metamorfose” e “Na colônia penal”, uma vez que estas e outras criações literárias do autor sempre trazem a questão da opressão que recai principalmente em sujeitos simples que compõem a sociedade.