Este artigo analisa a Vila Aparecida, em Ouro Preto, transformada em símbolo de “desordem” urbana a partir de sua interferência na paisagem do sítio histórico tombado. Formada desde meados do século XX por concessões fundiárias, autoconstruções e fluxos migratórios, a Vila ganhou centralidade política em 2011, quando uma perícia do Ministério Público Federal, ao inspecionar obras de expansão do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG), apontou incidentalmente suas casas como problema paisagístico. O episódio mostra como a noção de desordem funciona como gramática que naturaliza a exclusão: necessidades de moradia aparecem como ruído, enquanto se toma como ordem a preservação de um cenário que busca recompor a atmosfera do século XVIII – casario colonial emoldurado por encostas verdes. Em chave materialista-dialética, argumenta-se que o bairro não é anomalia, mas produto histórico das contradições entre a reprodução da vida popular e a mercantilização da paisagem. Documentos administrativos, laudos técnicos e registros fundiários permitem discutir como normas e planos não enfrentam essas contradições, limitando-se a administrá-las e reforçando hierarquias urbanas que a Vila torna visíveis.