Este artigo investiga as diferenças de performance entre os principais gêneros da lírica galego-portuguesa – cantigas de amor, de amigo, de escárnio e maldizer, e as Cantigas de Santa Maria. Parte-se da hipótese de que tais gêneros não se distinguem apenas por convenções temáticas e retóricas, mas também por regimes performativos específicos. Enquanto as cantigas de amigo sugerem uma execução possivelmente coral ou responsorial, marcada por paralelismo e refrão, as cantigas de amor parecem adequar-se a um registro de enunciação individual e cortesã. Já as cantigas satíricas indicam contextos performativos de disputa e interlocução pública, ao passo que as Cantigas de Santa Maria apontam para uma encenação devocional de caráter cortesão e litúrgico. O objetivo do estudo é compreender de que modo as estruturas formais e as vozes poéticas permitem reconstruir diferentes modos de execução dessas composições. Metodologicamente, o trabalho combina análise dos textos com aportes da teoria da antropologia da performance. Resultados parciais indicam que os gêneros da lírica galego-portuguesa podem ser compreendidos como formas poéticas associadas a distintos contextos de performance social –comunitário, cortesão satírico ou devocional– revelando a centralidade da voz e da execução no funcionamento dessa tradição.