Representação de gênero: uma análise comparativa da narrativa Paiter Suruí “As primeiras mulheres” e o conto “Lenda de Namarói” de Mia Couto Autores

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ISSN: 2316-6134
Editor Chefe: Ida Alves
Início Publicação: 15/05/2024
Periodicidade: Semestral
Área de Estudo: Linguística, Letras e Artes, Área de Estudo: Artes, Área de Estudo: Letras

Representação de gênero: uma análise comparativa da narrativa Paiter Suruí “As primeiras mulheres” e o conto “Lenda de Namarói” de Mia Couto Autores

Ano: 2026 | Volume: 37 | Número: 56
Autores: Luana Gomes Pagung
Autor Correspondente: Luana Gomes Pagung | luana.pagung@outlook.com

Palavras-chave: Estudos de gênero, Literatura comparada, Literatura luso-afro-brasileira

Resumos Cadastrados

Resumo Português:

Narrativas cosmogônicas de tradição oral são as engrenagens de transmissão dos valores culturais de um povo, passados de geração a geração; tanto as narrativas ameríndias quanto as narrativas africanas compartilham dessa íntima relação, reservando a elas uma temática que lhes permitem ser cotejadas. Nesse panorama, o presente artigo propõe uma análise comparativa da intertextualidade temática que perpassa duas narrativas de continentes tão distantes e, ainda assim, culturalmente análogos: o continente americano, com “As primeiras mulheres”, narrativa de autoria coletiva e tradição oral pertencente a povo indígena brasileiro Paiter Suruí, coletada e traduzida por Betty Mindlin em Vozes da origem; e o continente africano, com o conto “Lenda de Namorói”, de autoria de Mia Couto, em Estórias abensonhadas, uma narrativa inspirada na tradição oral de etnias norte-moçambicanas; a fim de examinar como o feminino e o masculino são simbolicamente construídos nas duas narrativas cosmogônicas e sua articulação como elemento determinante nas relações de gênero e apoderamento do espaço social. Partindo de aportes dos estudos de gênero, psicanalíticos e do mito para reflexões sobre questões simbólicas das narrativas cosmogônicas, a análise evidencia que a narrativa ameríndia organiza o surgimento do feminino de modo a reafirmar uma hierarquia sexual estruturante da ordem social, enquanto o conto moçambicano reinscreve a tradição oral por meio de deslocamentos simbólicos que tensionam o modelo falocêntrico. A leitura comparativa permite observar como narrativas de temáticas semelhantes podem operar funções ideológicas distintas, revelando o potencial crítico da reescritura literária das cosmogonias tradicionais que figuram no imaginário dos povos.



Resumo Inglês:

Cosmogonic narratives of oral tradition function as mechanisms for transmitting a people’s cultural values across generations. Both Amerindian and African narratives share this close relationship with orality, which enables them to be examined comparatively. Within this framework, this article proposes a comparative analysis of the thematic intertextuality that runs through two narratives from geographically distant yet culturally analogous continents: the Americas, with “As primeiras mulheres”, a collectively authored oral narrative of the Brazilian Indigenous people Paiter Suruí, collected and translated by Betty Mindlin in Vozes da origem; and Africa, with the short story “Lenda de Namorói” by Mia Couto, published in Estórias abensonhadas, a narrative inspired by the oral tradition of northern Mozambican ethnic groups. The analysis aims to examine how femininity and masculinity are symbolically constructed in these two cosmogonic narratives and how they operate as determining elements in gender relations and the appropriation of social space. Drawing on contributions from gender studies, psychoanalysis, and myth theory to reflect on the symbolic dimensions of cosmogonic narratives, the analysis shows that the Amerindian narrative organizes the emergence of the feminine in a way that reaffirms a sexual hierarchy structuring the social order, while the Mozambican short story reinscribes oral tradition through symbolic displacements that challenge the phallocentric model. The comparative reading reveals how narratives with similar themes can perform distinct ideological functions, highlighting the critical potential of the literary rewriting of traditional cosmogonies embedded in the collective imagination.