Este artigo analisa o filme dinamarquês Melancolia (2011), escrito e dirigido por Lars von Trier, cineasta conhecido por abordar temas incômodos e controversos, como sexualidade, moralidade e sofrimento psíquico. A narrativa acompanha o cotidiano das irmãs Claire e Justine e é estruturada em dois atos: o primeiro, centrado em Justine, retrata seu casamento e a manifestação progressiva de melancolia e apatia; o segundo, focado em Claire, apresenta o agravamento do quadro depressivo da irmã e a convivência entre ambas diante da iminente colisão de um planeta fictício com a Terra. Esse elemento de ficção científica funciona como pano de fundo para o aprofundamento psicológico das personagens e conduz a trama a um desfecho apocalíptico. A proposta deste estudo é analisar o melancólico nas figuras femininas do filme a partir de representações presentes na história da arte ocidental. Parte-se de uma leitura foucaultiana para repensar a construção cultural da mulher, dialogando com a personagem Ofélia, de Hamlet, e com suas representações pictóricas, frequentemente associadas à loucura, à melancolia e à histeria. O artigo organiza-se em quatro momentos: a conceitualização de Stimmung e melancolia; uma análise estética do filme (roteiro, direção artística, trilha sonora e fotografia); a análise dos dois atos e de suas protagonistas; e, por fim, as considerações finais sobre a noção de natureza morta em Melancholia.